sábado, 16 de maio de 2026

§ Pontes e Ponteiros


Queria ser um amanuense, funcionário inerte da mais perfeita ficção burocrática. Ou ter qualquer outro cargo inútil que infelizmente já foi extinto pelas máquinas. Seria miserável, mas pelo menos teria alguns dólares no bolso. Ao menos seria miserável. Nem a miséria humana me foi legada. Nem a miséria nem a glória. Só sobrou a mim cópias de cópias, restos de restos.

Que geração é essa? O que é esse século do nada? Vaidades vazias, velejando à procura de mais vazios... Vejo vários à procura de sentido; tomam como molde as vidas dos bisavós. Como se o lapso de um século não significasse nada. Onde já se viu!? Acreditam estar atrasados e querem retroceder os ponteiros do relógio. Mas os relógios não mais possuem ponteiros. O tempo é uma ficção. Para nós, os bisnetos, o tempo não parou, não exatamente, pois foi extinto. Estamos fora dele, num espaço informe e ilimitado, onde giramos e giramos, sem saber se é sentido horário ou anti-horário. E que diferença faz? Apenas brincamos de ser ponteiros imaginários. Rodopiamos numa dança de bonecos de pano. Sem voz, sem tempo e sem alma.

Emulam a vida dos bisavós, bêbados de fetiches românticos. Delirantes, atravessam uma ponte falsa de 100 anos, em busca do tempo perdido, apenas para encontrar outro vazio. Outro buraco negro. Estou sentado, aguardando sem pressa (pois não tenho tempo para perder) qual será a próxima ficção coletiva a ser embrulhada em papel-presente, vendida como dogma e comprada como salvação; que criará mais um vazio nos corações desses bisnetos sem pais nem avós... engatinhamos no escuro... Que desastre.

Não lembremos do passado, dele não temos memória.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

§ Fogo-fátuo


Quando eu era criança, minha concentração era inquebrável. O mundo era um fogo-fátuo, que lumiava-se os cantos a fim de que eu os explorasse, e apagava-se quando eu bem queria. Bastava pegar o lápis que toda a criação me obedecia; o silêncio se fazia absoluto, e eu atacava o papel. Talvez ele gritasse, mas só eu o ouvia.

Não haviam interrupções; sequer existiam os desgraçados ruídos dos celulares, que hoje ocupam um lugar sagrado na mesa. À época mais simples e real, haiva a quantidade certa de escuridão e de silêncio. Eram apenas eu e o objeto, e da nossa relação nasciam faíscas; o breu ganhava companhia, valsavam juntas as sombras das formas e os clarões da arte.

Não mais vi o brilho azulado e elusivo dessas chamas. Diz-se que estamos na era das luzes; as cidades estão sempre acordadas, espiando os homens. Mas estou cansado dos olhos e das luzes.

Hoje o mundo se me afigura como um vasto cemitério azul, onde os sepulcros são astros. As gentes que alegam celebrar a vida, dançam sobre os jazigos; suas pernas esverdeadas trotam e sambam, nessa dança macabra. Ah, o ruído me ensurdece, apaga-me os sentidos. Trôpego, vago pela noite em busca do que me foi roubado.

Sumiram com o fogo-fátuo, e tenho medo de encontrar enterrada, entre os esqueletos, a minha velha infância.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

§ Fenixologia


Tenho receio de escrever. De algumas semanas pra cá, comecei a ver tudo que já produzi com certo asco. Parece-me que as minhas palavras foram escritas por outro alguém, de pouco senso e péssimo gosto. Não tomaria nenhuma decisão que ele tomou. Sei que há certa infantilidade em querer fazer um revisionismo absoluto, em jogar fora tudo em troca de nada. Mas não consigo ver outra forma de prosseguir. Caso eu fique ancorado a uma forma que já envelheceu, como um romântico que se apega a imagens de passados inexistentes, morrerei. Tenho certeza disso. Melhor: entrarei num estado de morte em vida (eis a exceção de algo que antes escrevi, mas que ainda me dá gosto). Não dá mais para ficar no mesmo ponto, esperando que os dias que vejo esmaecer em tons cada vez mais cinzentos e frios, de súbito, amanheçam verdes. Preciso forçar uma primavera. Mas esse ódio, esse desgosto, essa angústia me impedem de fazê-lo. Essas formas arcaicas também me envelheceram. Com dificuldade é que escrevo esse texto, pois agora encontro-me com certa timidez de produzir... Não. Não. A verdade é que estou com vergonha da pena - timidez seria uma meia confissão. E não preciso disso hoje. Às vezes é preciso forçar uma catarse. Dou-me enfim a liberdade de escrever sobre mim, diante de mim mesmo, desmascarado e de olhos arregalados.

Preciso de um olhar mais benigno, devo esquecer as imagens que, de alguma forma, tornaram-se como víboras que se amarraram aos meus pés; cujos toques fazem a minha alma morrer de dor. E que morra logo a minha alma. É melhor morrer cedo, para não tardar o renascimento. Há tempos que não uso o dom da fenixologia, esse estranho talento que Deus deu aos poetas. A fenixologia, caro leitor, é a arte de fazer as coisas nascerem e morrerem, e sem ela os poetas nada podem fazer. Caso se recusassem a usar este poder, entrariam no estado que já descrevi como morte em vida. Os poetas insuflam vida aos objetos, queimam florestas, congelam céus e pintam mares de cores impossíveis, apenas para serem embelezarem um soneto. A paisagem deve ser sempre fértil de possibilidades. E o êxito nessa atividade depende diretamente da capacidade fenixológica do artista. O poeta mata e revive o universo inteiro infinitas vezes. Bem sei que ainda preciso fazer isso muitas vezes. Antes disso, não acho que posso chamar nada que eu produzo de obra, mas apenas de experimento. Experimentos e mais experimentos. E o jeito atual já se exaustou em mim. A paisagem secou; bebe toda e qualquer umidade a areia ardente. Ah, então dou os passos para que a natureza, em mim, faça-se nova outra vez. Que eu me esqueça de tudo que já aprendi. Que eu pisoteie essas cobras dos infernos e saia desse estado de preguiça e ódio. Que pelo fogo a natureza se refaça íntegra.

Não posso deixar os maus sentimentos vencerem. Não sou desses autores que se beneficiam profundamente do desprezo, e de toda sorte de sentimentos ruins. Tenho uma voz leve, ainda imatura e que precisa ver os objetos com olhos puros a fim de torná-los poesia. O olhar lento de ancião é contrário ao meu temperamento. Meus olhos são fáceis e ágeis. E ledo é o engano dos que querem tomar para si o que pertence aos outros. Talvez os maus sentimentos, densos, nutridos e maturados, tenham sido fonte de tremenda inspiração poética, como em Baudelaire. Contudo, podemos dizer que há o gênero de poeta, mas várias são as suas espécies, os seus tipos. O legado de Orfeu é vastíssimo. Não há necessidade de querer me ocupar com os quereres de outros poetas. Há uns que se encaixam melhor ao meu tipo, e outros menos. Posso (e até devo) invejar certos autores, mas sempre em matéria de capacidade e nunca de tipo. A verdade é que sou de certa estirpe de escritor, menos denso e mais jovem, e não há por que me envergonhar disso. Desato-me então desse nó de víboras que ferem os meus calcanhares. Morro com elas agora. Encerro agora essa vida a fim de que ela seja breve, e a arte longa.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

§ Excesso

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/24/Rembrandt_The_Artist_in_his_studio.jpg

 

Como de praxe, passo muito tempo pensando na obra perfeita. Assim fico contemplando a possibilidade e nunca o fato. Por isso não posto nada nesta coluna há um tempo. Enrolo os leitores diante deste inconstante blog enquanto tento sintetizar uma magnum opus. Sempre oscilante nesse desejo, fraquejo nessa intenção gnóstica, que acaba por deixar escapar uma nova postagem aqui e ali, e quando escapa, já é tarde demais para o perfeccionismo capturá-la. Está publicada. Já manchou o mundo. Está feita a obra.

Cansado de esperar minha própria disposição ao imperfeito, construo alguns estratagemas perfeitos, planos infalíveis, que, por óbvio, nunca dão frutos. E, no fundo, nem quero que deem. Não quero que meu processo vire uma receita de bolo, uma fórmula culinária, na qual eu repita sempre os mesmos passos.

Portanto, sendo necessitado de uma saída, visto-me de uma nova persona: eu mesmo. Então adoto o estilo pelo qual tomei gosto, irônico e pedante. Escolho um não-estratagema para evitar o engessamento criativo. A ideia original de instaurar um processo burocrático perfeito não passa de tentação baixa. Nem é do meu feitio; sou alérgico à esteira de produção.

Dito isso, acredito que seja impossível a manutenção de uma consistência rotineira de produção para o blog. O autor nasceu com um gênio terrível, é espontâneo, caótico e caprichoso (que acabou transformando uma coluna seríssima sobre Caravaggio e outros mestres da alta cultura em um depósito de ignobilidades!).

Apesar do desejo irremediável de colecionar figurinos, de trocar de chapéu a cada texto, para que o autor seja uma nova personagem sempre a usar traje mais adequado para cada situação dramática, ele não é absoluto. Apesar do capricho cobiçar a autonomia, ele não é livre.

Cada gesto que ensaio é limitado por um metro invisível que me restringe, e, por me restringir, expande-me: faz com que, ao invés de nada, algo seja feito. Caso contrário, a esmo, os gestos seriam apenas ensaiados, e nunca efetivados, a pena se encheria de tinta para o papel continuar virgem. Os trajes seriam colocados, peças inteiras seriam decoradas por vários atores internos, e mesmo assim, nunca seriam abertas as cortinas desse teatro, pois o ator precisa de um diretor. Assim é fortuito o formato do blog; nele consigo escrever. Talvez eu precise mais do blog do que ele de mim. Seu confinamento é libertador.

Mas, se o autor atua como mero performer, improvisando melodias sobre uma harmonia já estabelecida, quem é, então, que puxa as cordas? Afinal, quem dirige esta obra? Seria um outro autor, dentro do mesmo, internamente seccionado, para que cada um cuide de seu papel? Difícil dizer...

Creio que a resposta esteja no mistério. Digo, que a resposta esteja em não responder. E como temo maximamente a ideia de uma experiência individual, assumo arrogantemente que os outros artistas, cônscios ou não, também chegam a essa conclusão. Temo que os demiurgos na minha mente sejam fantoches autoimpostos. Prefiro acreditar que partilho de um mandato que assola toda raça humana do que ter um pensamento original, perfeitamente individual, redondo, fechado. Quero que exista algo maior, mais misterioso, quero que o mistério seja maior que o fato, desejo que a magia verdadeira não esteja apenas na mente. Por falta de opção, tenho fé no que não posso provar.

É um tanto paradoxal o processo que descrevo: tenho certezas em certas ausências e ausência de certezas, mas, acima de tudo, fé no invisível. Fé no invisível corpo de leis que são maiores que o autor, mas que também nasce nele, que prende-o à realidade, que tira-o do não-ser para que a música tenha improviso, desvario e qualquer outro capricho, mas dentro do compasso determinado pela ala rítmica, para que as páginas sejam tingidas de preto de tantos neologismos e onomatopeias inventadas, mas sempre dentro das margens, respeitando a diagramação editorial, para que as telas sejam vivificadas por cores inomináveis, mas nunca escorrendo para além da moldura, para que haja alguma obra, pois toda obra é discernível.

A liberdade, tão almejada pelos artistas, está justamente na restrição, em amarrar-se à forma invisível que já governa a obra antes dela nascer... A forma que apenas aguarda, como um recipiente, o despejar da matéria prima que jorra do autor.

Que acusem essa argumentação de ser solipsista, febril e delirante. Pouco importa. Só sei que não quebrarei o cubo invisível que me confina num estúdio mental, pois aqui posso trabalhar com algum juízo.

Curvo-me então às leis não escritas que governam os quatro cantos desse espacinho digital. Tomo agora gosto pela geometria. Vejo que tomo parte dela, não para desenhá-la, mas preenchê-la. Pois a forma já existe e já é bela, só é preciso ouvi-la. Que o sumo matemático desenhe a fórmula para que eu a preencha com os melhores ornamentos! Estou confortável agora, posso continuar a viver com meus caprichos.

Por isso posto aqui esse experimento, respeitando o decreto invisível, indizível, imperscrutável, da divindade que a mim susurra: assim está bom.

domingo, 2 de novembro de 2025

Pulvis

 

 

A cada suspiro dado, ganhamos passado e perdemos futuro. O presente é a constante atualização da morte. O tempo é o fator de separação entre os vivos e os mortos, porém, a sua marcha incessante nos aproxima do caixão. O tempo é o que temos para nos distinguir dos mortos, pois o deles já se esgotou. Ora, mas o nosso também se esgota; está esgotando agora mesmo, enquanto escrevo estas palavras e tu, leitor, lê-as. Estamos chegando lá, no último suspiro.

Cientes da enorme angústia causada nos corações humanos pela morte, necessitamos de uma saída. Sendo a morte inevitável - e, portanto, inescapável - como, afinal, lidar com a morte? Sendo filósofo, acredito. Isto é, morrer antes de morrer. Bendito seja Sócrates, que morreu antes de beber do veneno! Este, sim, seguiu a filosofia em seu sentido verdadeiro, do amor à sabedoria. Um amor que implica, necessariamente, na rejeição da mentira. Acredito - fazendo aqui um salto lógico indigno de ser chamado de filosofia - que o amor filosófico deságua na mansidão. Por que a mansidão? Ora, a mansidão é morrer. Sócrates, em paz, morre para que o estado ateniense sobreviva; contempla a injustiça com os olhos de um defunto. Com olhos lúgubres, vê que existe algo mais real que os desígnios errôneos do homem. Vê que a mentira e o erro não afetam aquilo que é de grau superior, mais perfeito e imutável. A mansidão coloca a verdade acima da mentira. Portanto, dentro da alma do filósofo, o conflito entre as duas forças é encerrado. Não há competição, dúvida ou atrito entre as forças. A verdade permanece intacta, imaculada. É daí que surge a coragem socrática.

Devotos da mentira, os vilipendiosos acusadores de Sócrates querem vencer a morte - são o espírito que nega -, enquanto o justo, amante da verdade, quer ser vencido por ela. Por ser vencido torna-se vencedor. Entrega à verdade todo o seu ser, sua vida não é mais sua. A verdade é maior que a sua vida. Assim, rende-se ao desígnio da Razão que governa o mundo. Desperta no sonho da morte para encarar aquilo que é. Ora, ele não podia se preocupar menos com aquilo que não é; por isso, bebe o veneno com tranquilidade, pois sabe que não alcançou a verdade, contudo, rendeu-se a ela. E, por isso, espera encontrá-la após seu maior teste de fé: a sepultura. A morte não é mais signo de horror e desespero, é o símbolo do portão para a vida, a verdadeira vida.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

§ Questão Séptica


Tenho o septo desviado. Com tal afirmação, imagina-se que tenho algum problema de caráter - afinal, há algo desviado - ou imagina-se que uso uma expressão poética de certa época e lugar. Mas, não. Quando uso a frase "tenho o septo desviado", digo que tenho a ponte do nariz torta, internamente - a condição não tem nenhuma força caricatural externa. O septo nasal é por vezes cruel: ele causa-me tantos problemas! A sinusite é constante, a cabeça e a face latejam nas temporadas invernais. E tudo isso sem nem me coroar com alguma deformidade visível! Às vezes penso que esse septo é realmente desviado.

Mas faço gracejos teatrais, escrevo isso pois encontro-me convalescido em virtude do septo e do frio, e por isso a vontade de reclamar do desviado. A verdade é que o septo não me incomoda na maior parte do ano. É claro que, na menor parte, sim, mas é tolerável. Na prática, sou apenas uma pessoa que gripa com mais facilidade e sofre mais com essas. O que me incomoda é a falta de uma marca, um signo na face que explicite essa torção interna. Que graça tem sofrer anonimamente? Poderia resolver isso com uma suposta cirurgia, já muito confiável e avançada, pelo que dizem. Mas tenho medo de ser cobaia, e a recuperação é um tanto cruel, além do risco cirúrgico, etc.

Uma cirurgia para endireitar o septo, não acho que isso me satisfaria. Seria mais interessante entortar o nariz externamente para igualar os polos. Isso, sim, resolveria meu problema, de uma correspondência das faces, a interior e a exterior, esta muito normal e aquela muito retorcida. Esse septo desviado nem serve-me para cumprir um capricho, preciso transformá-lo em literatura para que me tenha alguma valia...Penso que essa questão séptica deve ser uma brincadeira divina, um desses casos de humor de Deus. Entretanto nós, homens do XXI, não cogitamos isso. Falamos em termos claros, científicos, empíricos, aprovados pelo corpo místico do magistério da ciência. A propósito, aproveitando o ensejo científico, devo fazer uma correção: a expressão correta é "tenho desvio no septo". É o uso médico mais correto, também. Peço desculpas ao objetivíssimo departamento científico que lê estas páginas, mas gostei tanto do "septo desviado" que quero mantê-lo. Acho que explica melhor o meu problema. E Será que tenho culpa nessa história? Até meu esqueleto é barroco.

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sete obras de misericórdia - Caravaggio


Suas cenas sempre estão entre o começo e o fim de uma ação; parece que Caravaggio sempre está em busca do instante em que a verdade simbólica de um ato resplandece com maior clareza. O pintor busca o momento perfeito, onde há o maior drama, quando o conjunto dos gestos mais significativos se entrelaçam para construir a tela que mais choca, horroriza e emociona o contemplador. Caravaggio parece imaginar a cena em toda a sua extensão, para então ilustrar o segundo em que tudo se alinha da forma mais dramática possível. Ele quer capturar o segundo em que os olhos se reviram, em que o sangue jorra, em que o gesto, e, por extensão, o drama é perfeitamente visível.

Se imaginarmos uma curva gaussiana - cujo auge está no meio, e o começo e o fim são o seu sopé - temos uma ferramenta imagética para melhor entender uma ação dramática: seu início é apenas uma preparação, onde as intenções ainda se acumulam e ainda não foram exortadas, seu fim já é tarde demais, os atos já foram efetivados e a tensão já foi libertada, porém, o meio desta curva é onde está o ouro, é onde as intenções se transpõem em efetivação, é o intermezzo de tensão acumulada e liberada, é o clímax perfeito, é onde está o presente. 1 segundo antes, e a cena desejada ainda estaria no porvir, 1 segundo depois e ela já estaria no passado. Portanto, o mestre do chiaroscuro sempre escolhe o instante em que luz e sombra estão perfeitamente alinhados para revelar o máximo daquela ação (lembrando que a sombra também é reveladora), pois o passado é memória e o futuro, especulação, mas o presente é verdade. E a verdade desse presente é transmitida pela relação entre luzes e sombras - e, se quisermos desenvolver ainda mais esse esquema, poder-se-ia dizer que, se o passado é o fato já revelado, ele é o claro, e se o futuro é o mistério do que ainda não chegou, ele é o escuro, dessa forma, o presente tão perseguido pelo artista seria seu intermédio, onde a natureza simbólica mais profunda do chiaroscuro se revela.

Para explorar esse tema, podemos usar de exemplo a tela das Sete Obras de Misericórdia:

 


Encontrar a unidade numa tela barroca pode ser um tanto difícil, em especial por causa da devoção à multipolaridade. Explica Eugenio D’Ors que as figuras do barroco são marcadas por uma divisão interna, uma figura humana numa pintura barroca pode bifurcar seus gestos, negar com uma parte e afirmar com outra, a mão pode contradizer o braço ao qual ela pertence. Nesta pintura, por exemplo, vemos o símbolo da Caritas Romana, Pero, filha de Címon, alimentar o pai enquanto, simultaneamente, observa o lado oposto da tela, mostrando seu interior bifurcado, multipolar. Mas, a despeito de tudo que possa parecer dispersão e caos, interior e exterior, a tela é unida pelo princípio da Misericórdia, simbolizada pelo chiaroscuro.

Contudo, a obra faz mais sentido quando entende-se que o presente capturado por Caravaggio nesta tela é o instante exato em que a Graça toca o Mundo, e a unidade da pintura é atingida através da luz, que simboliza a Misericórdia divina e toca todas as personagens presentes.

A Madonna carrega o Menino e é acompanhada por dois anjos. Um deles estende a mão para tocar a terra, fazendo a ponte entre a eviternidade e a temporalidade, iluminando a cena. Só podemos ver as personagens e suas ações, pois elas participam da Misericórdia. Parece que a participação no ato misericordioso - seja fazendo, seja recebendo - é a condição que une todas as figuras na tela, numa unidade caótica e barroca de confusão multipolar esclarecida pela razão divina.

A luz é suficiente para que você veja as figuras celestes e as obras de caridade das figuras terrenas, todo o resto é contingente; o cenário pode ser uma viela comum napolitana, ou lugar nenhum, isso pouco importa. Do pai sendo alimentado vemos apenas a cabeça entre as grades, do morto sendo enterrado, vemos apenas os pés. Tudo que é visível participa da Misericórdia.

E, no meio de várias figuras, no canto inferior esquerdo, de forma quase invisível, Caravaggio pinta um homem no chão, possivelmente um leproso, a luz sutilmente toca-lhe. É possível ver seus dedos entrelaçados em forma de súplica ou oração, e também a sola de seu pé esquerdo, mostrando que ele não está de pé, fixo no chão, mas jogado. Mesmo com seu corpo quase completamente oculto pela sombra, por meio dos leves toques da luz podemos ver que ele está rendido, pedindo. O sofrimento deste doente, sendo cuidado por São Martinho de Tours, é acentuado pela sombra; o homem é quase imperceptível. O testemunho mais dramático da cena está longe dos holofotes, composta propositalmente para que o público possa esquecê-lo. Apesar disso, no momento especialíssimo que Caravaggio captura em sua tela, a Misericórdia o toca...de forma tão sutil e leve, o mestre do chiaroscuro pinta uma figura que pode até ser esquecida e ignorada pelo público - mas não por Deus.

 




§ Pontes e Ponteiros

Queria ser um amanuense, funcionário inerte da mais perfeita ficção burocrática. Ou ter qualquer outro cargo inútil que infelizmente já foi ...