Queria ser um amanuense, funcionário inerte da mais perfeita ficção burocrática. Ou ter qualquer outro cargo inútil que infelizmente já foi extinto pelas máquinas. Seria miserável, mas pelo menos teria alguns dólares no bolso. Ao menos seria miserável. Nem a miséria humana me foi legada. Nem a miséria nem a glória. Só sobrou a mim cópias de cópias, restos de restos.
Que geração é essa? O que é esse século do nada? Vaidades vazias, velejando à procura de mais vazios... Vejo vários à procura de sentido; tomam como molde as vidas dos bisavós. Como se o lapso de um século não significasse nada. Onde já se viu!? Acreditam estar atrasados e querem retroceder os ponteiros do relógio. Mas os relógios não mais possuem ponteiros. O tempo é uma ficção. Para nós, os bisnetos, o tempo não parou, não exatamente, pois foi extinto. Estamos fora dele, num espaço informe e ilimitado, onde giramos e giramos, sem saber se é sentido horário ou anti-horário. E que diferença faz? Apenas brincamos de ser ponteiros imaginários. Rodopiamos numa dança de bonecos de pano. Sem voz, sem tempo e sem alma.
Emulam a vida dos bisavós, bêbados de fetiches românticos. Delirantes, atravessam uma ponte falsa de 100 anos, em busca do tempo perdido, apenas para encontrar outro vazio. Outro buraco negro. Estou sentado, aguardando sem pressa (pois não tenho tempo para perder) qual será a próxima ficção coletiva a ser embrulhada em papel-presente, vendida como dogma e comprada como salvação; que criará mais um vazio nos corações desses bisnetos sem pais nem avós... engatinhamos no escuro... Que desastre.
Não lembremos do passado, dele não temos memória.
sábado, 16 de maio de 2026
§ Pontes e Ponteiros
§ Pontes e Ponteiros
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