Tenho o septo desviado. Com tal afirmação, imagina-se que tenho algum problema de caráter - afinal, há algo desviado - ou imagina-se que uso uma expressão poética de certa época e lugar. Mas, não. Quando uso a frase "tenho o septo desviado", digo que tenho a ponte do nariz torta, internamente - a condição não tem nenhuma força caricatural externa. O septo nasal é por vezes cruel: ele causa-me tantos problemas! A sinusite é constante, a cabeça e a face latejam nas temporadas invernais. E tudo isso sem nem me coroar com alguma deformidade visível! Às vezes penso que esse septo é realmente desviado.
Mas faço gracejos teatrais, escrevo isso pois encontro-me convalescido em virtude do septo e do frio, e por isso a vontade de reclamar do desviado. A verdade é que o septo não me incomoda na maior parte do ano. É claro que, na menor parte, sim, mas é tolerável. Na prática, sou apenas uma pessoa que gripa com mais facilidade e sofre mais com essas. O que me incomoda é a falta de uma marca, um signo na face que explicite essa torção interna. Que graça tem sofrer anonimamente? Poderia resolver isso com uma suposta cirurgia, já muito confiável e avançada, pelo que dizem. Mas tenho medo de ser cobaia, e a recuperação é um tanto cruel, além do risco cirúrgico, etc.
Uma cirurgia para endireitar o septo, não acho que isso me satisfaria. Seria mais interessante entortar o nariz externamente para igualar os polos. Isso, sim, resolveria meu problema, de uma correspondência das faces, a interior e a exterior, esta muito normal e aquela muito retorcida. Esse septo desviado nem serve-me para cumprir um capricho, preciso transformá-lo em literatura para que me tenha alguma valia...Penso que essa questão séptica deve ser uma brincadeira divina, um desses casos de humor de Deus. Entretanto nós, homens do XXI, não cogitamos isso. Falamos em termos claros, científicos, empíricos, aprovados pelo corpo místico do magistério da ciência. A propósito, aproveitando o ensejo científico, devo fazer uma correção: a expressão correta é "tenho desvio no septo". É o uso médico mais correto, também. Peço desculpas ao objetivíssimo departamento científico que lê estas páginas, mas gostei tanto do "septo desviado" que quero mantê-lo. Acho que explica melhor o meu problema. E Será que tenho culpa nessa história? Até meu esqueleto é barroco.
