Suas cenas sempre estão entre o começo e o fim de uma ação; parece que Caravaggio sempre está em busca do instante em que a verdade simbólica de um ato resplandece com maior clareza. O pintor busca o momento perfeito, onde há o maior drama, quando o conjunto dos gestos mais significativos se entrelaçam para construir a tela que mais choca, horroriza e emociona o contemplador. Caravaggio parece imaginar a cena em toda a sua extensão, para então ilustrar o segundo em que tudo se alinha da forma mais dramática possível. Ele quer capturar o segundo em que os olhos se reviram, em que o sangue jorra, em que o gesto, e, por extensão, o drama é perfeitamente visível.
Se imaginarmos uma curva gaussiana - cujo auge está no meio, e o começo e o fim são o seu sopé - temos uma ferramenta imagética para melhor entender uma ação dramática: seu início é apenas uma preparação, onde as intenções ainda se acumulam e ainda não foram exortadas, seu fim já é tarde demais, os atos já foram efetivados e a tensão já foi libertada, porém, o meio desta curva é onde está o ouro, é onde as intenções se transpõem em efetivação, é o intermezzo de tensão acumulada e liberada, é o clímax perfeito, é onde está o presente. 1 segundo antes, e a cena desejada ainda estaria no porvir, 1 segundo depois e ela já estaria no passado. Portanto, o mestre do chiaroscuro sempre escolhe o instante em que luz e sombra estão perfeitamente alinhados para revelar o máximo daquela ação (lembrando que a sombra também é reveladora), pois o passado é memória e o futuro, especulação, mas o presente é verdade. E a verdade desse presente é transmitida pela relação entre luzes e sombras - e, se quisermos desenvolver ainda mais esse esquema, poder-se-ia dizer que, se o passado é o fato já revelado, ele é o claro, e se o futuro é o mistério do que ainda não chegou, ele é o escuro, dessa forma, o presente tão perseguido pelo artista seria seu intermédio, onde a natureza simbólica mais profunda do chiaroscuro se revela.
Para explorar esse tema, podemos usar de exemplo a tela das Sete Obras de Misericórdia:
Encontrar a unidade numa tela barroca pode ser um tanto difícil, em especial por causa da devoção à multipolaridade. Explica Eugenio D’Ors que as figuras do barroco são marcadas por uma divisão interna, uma figura humana numa pintura barroca pode bifurcar seus gestos, negar com uma parte e afirmar com outra, a mão pode contradizer o braço ao qual ela pertence. Nesta pintura, por exemplo, vemos o símbolo da Caritas Romana, Pero, filha de Címon, alimentar o pai enquanto, simultaneamente, observa o lado oposto da tela, mostrando seu interior bifurcado, multipolar. Mas, a despeito de tudo que possa parecer dispersão e caos, interior e exterior, a tela é unida pelo princípio da Misericórdia, simbolizada pelo chiaroscuro.
Contudo, a obra faz mais sentido quando entende-se que o presente capturado por Caravaggio nesta tela é o instante exato em que a Graça toca o Mundo, e a unidade da pintura é atingida através da luz, que simboliza a Misericórdia divina e toca todas as personagens presentes.
A Madonna carrega o Menino e é acompanhada por dois anjos. Um deles estende a mão para tocar a terra, fazendo a ponte entre a eviternidade e a temporalidade, iluminando a cena. Só podemos ver as personagens e suas ações, pois elas participam da Misericórdia. Parece que a participação no ato misericordioso - seja fazendo, seja recebendo - é a condição que une todas as figuras na tela, numa unidade caótica e barroca de confusão multipolar esclarecida pela razão divina.
A luz é suficiente para que você veja as figuras celestes e as obras de caridade das figuras terrenas, todo o resto é contingente; o cenário pode ser uma viela comum napolitana, ou lugar nenhum, isso pouco importa. Do pai sendo alimentado vemos apenas a cabeça entre as grades, do morto sendo enterrado, vemos apenas os pés. Tudo que é visível participa da Misericórdia.
E, no meio de várias figuras, no canto inferior esquerdo, de forma quase invisível, Caravaggio pinta um homem no chão, possivelmente um leproso, a luz sutilmente toca-lhe. É possível ver seus dedos entrelaçados em forma de súplica ou oração, e também a sola de seu pé esquerdo, mostrando que ele não está de pé, fixo no chão, mas jogado. Mesmo com seu corpo quase completamente oculto pela sombra, por meio dos leves toques da luz podemos ver que ele está rendido, pedindo. O sofrimento deste doente, sendo cuidado por São Martinho de Tours, é acentuado pela sombra; o homem é quase imperceptível. O testemunho mais dramático da cena está longe dos holofotes, composta propositalmente para que o público possa esquecê-lo. Apesar disso, no momento especialíssimo que Caravaggio captura em sua tela, a Misericórdia o toca...de forma tão sutil e leve, o mestre do chiaroscuro pinta uma figura que pode até ser esquecida e ignorada pelo público - mas não por Deus.

