Como de praxe, passo muito tempo pensando na obra perfeita. Assim fico contemplando a possibilidade e nunca o fato. Por isso não posto nada nesta coluna há um tempo. Enrolo os leitores diante deste inconstante blog enquanto tento sintetizar uma magnum opus. Sempre oscilante nesse desejo, fraquejo nessa intenção gnóstica, que acaba por deixar escapar uma nova postagem aqui e ali, e quando escapa, já é tarde demais para o perfeccionismo capturá-la. Está publicada. Já manchou o mundo. Está feita a obra.
Cansado de esperar minha própria disposição ao imperfeito, construo alguns estratagemas perfeitos, planos infalíveis, que, por óbvio, nunca dão frutos. E, no fundo, nem quero que deem. Não quero que meu processo vire uma receita de bolo, uma fórmula culinária, na qual eu repita sempre os mesmos passos.
Portanto, sendo necessitado de uma saída, visto-me de uma nova persona: eu mesmo. Então adoto o estilo pelo qual tomei gosto, irônico e pedante. Escolho um não-estratagema para evitar o engessamento criativo. A ideia original de instaurar um processo burocrático perfeito não passa de tentação baixa. Nem é do meu feitio; sou alérgico à esteira de produção.
Dito isso, acredito que seja impossível a manutenção de uma consistência rotineira de produção para o blog. O autor nasceu com um gênio terrível, é espontâneo, caótico e caprichoso (que acabou transformando uma coluna seríssima sobre Caravaggio e outros mestres da alta cultura em um depósito de ignobilidades!).
Apesar do desejo irremediável de colecionar figurinos, de trocar de chapéu a cada texto, para que o autor seja uma nova personagem sempre a usar traje mais adequado para cada situação dramática, ele não é absoluto. Apesar do capricho cobiçar a autonomia, ele não é livre.
Cada gesto que ensaio é limitado por um metro invisível que me restringe, e, por me restringir, expande-me: faz com que, ao invés de nada, algo seja feito. Caso contrário, a esmo, os gestos seriam apenas ensaiados, e nunca efetivados, a pena se encheria de tinta para o papel continuar virgem. Os trajes seriam colocados, peças inteiras seriam decoradas por vários atores internos, e mesmo assim, nunca seriam abertas as cortinas desse teatro, pois o ator precisa de um diretor. Assim é fortuito o formato do blog; nele consigo escrever. Talvez eu precise mais do blog do que ele de mim. Seu confinamento é libertador.
Mas, se o autor atua como mero performer, improvisando melodias sobre uma harmonia já estabelecida, quem é, então, que puxa as cordas? Afinal, quem dirige esta obra? Seria um outro autor, dentro do mesmo, internamente seccionado, para que cada um cuide de seu papel? Difícil dizer...
Creio que a resposta esteja no mistério. Digo, que a resposta esteja em não responder. E como temo maximamente a ideia de uma experiência individual, assumo arrogantemente que os outros artistas, cônscios ou não, também chegam a essa conclusão. Temo que os demiurgos na minha mente sejam fantoches autoimpostos. Prefiro acreditar que partilho de um mandato que assola toda raça humana do que ter um pensamento original, perfeitamente individual, redondo, fechado. Quero que exista algo maior, mais misterioso, quero que o mistério seja maior que o fato, desejo que a magia verdadeira não esteja apenas na mente. Por falta de opção, tenho fé no que não posso provar.
É um tanto paradoxal o processo que descrevo: tenho certezas em certas ausências e ausência de certezas, mas, acima de tudo, fé no invisível. Fé no invisível corpo de leis que são maiores que o autor, mas que também nasce nele, que prende-o à realidade, que tira-o do não-ser para que a música tenha improviso, desvario e qualquer outro capricho, mas dentro do compasso determinado pela ala rítmica, para que as páginas sejam tingidas de preto de tantos neologismos e onomatopeias inventadas, mas sempre dentro das margens, respeitando a diagramação editorial, para que as telas sejam vivificadas por cores inomináveis, mas nunca escorrendo para além da moldura, para que haja alguma obra, pois toda obra é discernível.
A liberdade, tão almejada pelos artistas, está justamente na restrição, em amarrar-se à forma invisível que já governa a obra antes dela nascer... A forma que apenas aguarda, como um recipiente, o despejar da matéria prima que jorra do autor.
Que acusem essa argumentação de ser solipsista, febril e delirante. Pouco importa. Só sei que não quebrarei o cubo invisível que me confina num estúdio mental, pois aqui posso trabalhar com algum juízo.
Curvo-me então às leis não escritas que governam os quatro cantos desse espacinho digital. Tomo agora gosto pela geometria. Vejo que tomo parte dela, não para desenhá-la, mas preenchê-la. Pois a forma já existe e já é bela, só é preciso ouvi-la. Que o sumo matemático desenhe a fórmula para que eu a preencha com os melhores ornamentos! Estou confortável agora, posso continuar a viver com meus caprichos.
Por isso posto aqui esse experimento, respeitando o decreto invisível, indizível, imperscrutável, da divindade que a mim susurra: assim está bom.