Queria ser um amanuense, funcionário inerte da mais perfeita ficção burocrática. Ou ter qualquer outro cargo inútil que infelizmente já foi extinto pelas máquinas. Seria miserável, mas pelo menos teria alguns dólares no bolso. Ao menos seria miserável. Nem a miséria humana me foi legada. Nem a miséria nem a glória. Só sobrou a mim cópias de cópias, restos de restos.
Que geração é essa? O que é esse século do nada? Vaidades vazias, velejando à procura de mais vazios... Vejo vários à procura de sentido; tomam como molde as vidas dos bisavós. Como se o lapso de um século não significasse nada. Onde já se viu!? Acreditam estar atrasados e querem retroceder os ponteiros do relógio. Mas os relógios não mais possuem ponteiros. O tempo é uma ficção. Para nós, os bisnetos, o tempo não parou, não exatamente, pois foi extinto. Estamos fora dele, num espaço informe e ilimitado, onde giramos e giramos, sem saber se é sentido horário ou anti-horário. E que diferença faz? Apenas brincamos de ser ponteiros imaginários. Rodopiamos numa dança de bonecos de pano. Sem voz, sem tempo e sem alma.
Emulam a vida dos bisavós, bêbados de fetiches românticos. Delirantes, atravessam uma ponte falsa de 100 anos, em busca do tempo perdido, apenas para encontrar outro vazio. Outro buraco negro. Estou sentado, aguardando sem pressa (pois não tenho tempo para perder) qual será a próxima ficção coletiva a ser embrulhada em papel-presente, vendida como dogma e comprada como salvação; que criará mais um vazio nos corações desses bisnetos sem pais nem avós... engatinhamos no escuro... Que desastre.
Não lembremos do passado, dele não temos memória.
sábado, 16 de maio de 2026
§ Pontes e Ponteiros
sexta-feira, 15 de maio de 2026
§ Fogo-fátuo
Quando eu era criança, minha concentração era inquebrável. O mundo era um fogo-fátuo, que lumiava-se os cantos a fim de que eu os explorasse, e apagava-se quando eu bem queria. Bastava pegar o lápis que toda a criação me obedecia; o silêncio se fazia absoluto, e eu atacava o papel. Talvez ele gritasse, mas só eu o ouvia.
Não haviam interrupções; sequer existiam os desgraçados ruídos dos celulares, que hoje ocupam um lugar sagrado na mesa. À época mais simples e real, haiva a quantidade certa de escuridão e de silêncio. Eram apenas eu e o objeto, e da nossa relação nasciam faíscas; o breu ganhava companhia, valsavam juntas as sombras das formas e os clarões da arte.
Não mais vi o brilho azulado e elusivo dessas chamas. Diz-se que estamos na era das luzes; as cidades estão sempre acordadas, espiando os homens. Mas estou cansado dos olhos e das luzes.
Hoje o mundo se me afigura como um vasto cemitério azul, onde os sepulcros são astros. As gentes que alegam celebrar a vida, dançam sobre os jazigos; suas pernas esverdeadas trotam e sambam, nessa dança macabra. Ah, o ruído me ensurdece, apaga-me os sentidos. Trôpego, vago pela noite em busca do que me foi roubado.
Sumiram com o fogo-fátuo, e tenho medo de encontrar enterrada, entre os esqueletos, a minha velha infância.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
§ Fenixologia
Tenho receio de escrever. De algumas semanas pra cá, comecei a ver tudo que já produzi com certo asco. Parece-me que as minhas palavras foram escritas por outro alguém, de pouco senso e péssimo gosto. Não tomaria nenhuma decisão que ele tomou. Sei que há certa infantilidade em querer fazer um revisionismo absoluto, em jogar fora tudo em troca de nada. Mas não consigo ver outra forma de prosseguir. Caso eu fique ancorado a uma forma que já envelheceu, como um romântico que se apega a imagens de passados inexistentes, morrerei. Tenho certeza disso. Melhor: entrarei num estado de morte em vida (eis a exceção de algo que antes escrevi, mas que ainda me dá gosto). Não dá mais para ficar no mesmo ponto, esperando que os dias que vejo esmaecer em tons cada vez mais cinzentos e frios, de súbito, amanheçam verdes. Preciso forçar uma primavera. Mas esse ódio, esse desgosto, essa angústia me impedem de fazê-lo. Essas formas arcaicas também me envelheceram. Com dificuldade é que escrevo esse texto, pois agora encontro-me com certa timidez de produzir... Não. Não. A verdade é que estou com vergonha da pena - timidez seria uma meia confissão. E não preciso disso hoje. Às vezes é preciso forçar uma catarse. Dou-me enfim a liberdade de escrever sobre mim, diante de mim mesmo, desmascarado e de olhos arregalados.
Preciso de um olhar mais benigno, devo esquecer as imagens que, de alguma forma, tornaram-se como víboras que se amarraram aos meus pés; cujos toques fazem a minha alma morrer de dor. E que morra logo a minha alma. É melhor morrer cedo, para não tardar o renascimento. Há tempos que não uso o dom da fenixologia, esse estranho talento que Deus deu aos poetas. A fenixologia, caro leitor, é a arte de fazer as coisas nascerem e morrerem, e sem ela os poetas nada podem fazer. Caso se recusassem a usar este poder, entrariam no estado que já descrevi como morte em vida. Os poetas insuflam vida aos objetos, queimam florestas, congelam céus e pintam mares de cores impossíveis, apenas para serem embelezarem um soneto. A paisagem deve ser sempre fértil de possibilidades. E o êxito nessa atividade depende diretamente da capacidade fenixológica do artista. O poeta mata e revive o universo inteiro infinitas vezes. Bem sei que ainda preciso fazer isso muitas vezes. Antes disso, não acho que posso chamar nada que eu produzo de obra, mas apenas de experimento. Experimentos e mais experimentos. E o jeito atual já se exaustou em mim. A paisagem secou; bebe toda e qualquer umidade a areia ardente. Ah, então dou os passos para que a natureza, em mim, faça-se nova outra vez. Que eu me esqueça de tudo que já aprendi. Que eu pisoteie essas cobras dos infernos e saia desse estado de preguiça e ódio. Que pelo fogo a natureza se refaça íntegra.
Não posso deixar os maus sentimentos vencerem. Não sou desses autores que se beneficiam profundamente do desprezo, e de toda sorte de sentimentos ruins. Tenho uma voz leve, ainda imatura e que precisa ver os objetos com olhos puros a fim de torná-los poesia. O olhar lento de ancião é contrário ao meu temperamento. Meus olhos são fáceis e ágeis. E ledo é o engano dos que querem tomar para si o que pertence aos outros. Talvez os maus sentimentos, densos, nutridos e maturados, tenham sido fonte de tremenda inspiração poética, como em Baudelaire. Contudo, podemos dizer que há o gênero de poeta, mas várias são as suas espécies, os seus tipos. O legado de Orfeu é vastíssimo. Não há necessidade de querer me ocupar com os quereres de outros poetas. Há uns que se encaixam melhor ao meu tipo, e outros menos. Posso (e até devo) invejar certos autores, mas sempre em matéria de capacidade e nunca de tipo. A verdade é que sou de certa estirpe de escritor, menos denso e mais jovem, e não há por que me envergonhar disso. Desato-me então desse nó de víboras que ferem os meus calcanhares. Morro com elas agora. Encerro agora essa vida a fim de que ela seja breve, e a arte longa.
§ Pontes e Ponteiros
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