A cada suspiro dado, ganhamos passado e perdemos futuro. O presente é a constante atualização da morte. O tempo é o fator de separação entre os vivos e os mortos, porém, a sua marcha incessante nos aproxima do caixão. O tempo é o que temos para nos distinguir dos mortos, pois o deles já se esgotou. Ora, mas o nosso também se esgota; está esgotando agora mesmo, enquanto escrevo estas palavras e tu, leitor, lê-as. Estamos chegando lá, no último suspiro.
Cientes da enorme angústia causada nos corações humanos pela morte, necessitamos de uma saída. Sendo a morte inevitável - e, portanto, inescapável - como, afinal, lidar com a morte? Sendo filósofo, acredito. Isto é, morrer antes de morrer. Bendito seja Sócrates, que morreu antes de beber do veneno! Este, sim, seguiu a filosofia em seu sentido verdadeiro, do amor à sabedoria. Um amor que implica, necessariamente, na rejeição da mentira. Acredito - fazendo aqui um salto lógico indigno de ser chamado de filosofia - que o amor filosófico deságua na mansidão. Por que a mansidão? Ora, a mansidão é morrer. Sócrates, em paz, morre para que o estado ateniense sobreviva; contempla a injustiça com os olhos de um defunto. Com olhos lúgubres, vê que existe algo mais real que os desígnios errôneos do homem. Vê que a mentira e o erro não afetam aquilo que é de grau superior, mais perfeito e imutável. A mansidão coloca a verdade acima da mentira. Portanto, dentro da alma do filósofo, o conflito entre as duas forças é encerrado. Não há competição, dúvida ou atrito entre as forças. A verdade permanece intacta, imaculada. É daí que surge a coragem socrática.
Devotos da mentira, os vilipendiosos acusadores de Sócrates querem vencer a morte - são o espírito que nega -, enquanto o justo, amante da verdade, quer ser vencido por ela. Por ser vencido torna-se vencedor. Entrega à verdade todo o seu ser, sua vida não é mais sua. A verdade é maior que a sua vida. Assim, rende-se ao desígnio da Razão que governa o mundo. Desperta no sonho da morte para encarar aquilo que é. Ora, ele não podia se preocupar menos com aquilo que não é; por isso, bebe o veneno com tranquilidade, pois sabe que não alcançou a verdade, contudo, rendeu-se a ela. E, por isso, espera encontrá-la após seu maior teste de fé: a sepultura. A morte não é mais signo de horror e desespero, é o símbolo do portão para a vida, a verdadeira vida.
