Quando eu era criança, minha concentração era inquebrável. O mundo era um fogo-fátuo, que lumiava-se os cantos a fim de que eu os explorasse, e apagava-se quando eu bem queria. Bastava pegar o lápis que toda a criação me obedecia; o silêncio se fazia absoluto, e eu atacava o papel. Talvez ele gritasse, mas só eu o ouvia.
Não haviam interrupções; sequer existiam os desgraçados ruídos dos celulares, que hoje ocupam um lugar sagrado na mesa. À época mais simples e real, haiva a quantidade certa de escuridão e de silêncio. Eram apenas eu e o objeto, e da nossa relação nasciam faíscas; o breu ganhava companhia, valsavam juntas as sombras das formas e os clarões da arte.
Não mais vi o brilho azulado e elusivo dessas chamas. Diz-se que estamos na era das luzes; as cidades estão sempre acordadas, espiando os homens. Mas estou cansado dos olhos e das luzes.
Hoje o mundo se me afigura como um vasto cemitério azul, onde os sepulcros são astros. As gentes que alegam celebrar a vida, dançam sobre os jazigos; suas pernas esverdeadas trotam e sambam, nessa dança macabra. Ah, o ruído me ensurdece, apaga-me os sentidos. Trôpego, vago pela noite em busca do que me foi roubado.
Sumiram com o fogo-fátuo, e tenho medo de encontrar enterrada, entre os esqueletos, a minha velha infância.
