segunda-feira, 27 de outubro de 2025

§ Questão Séptica


Tenho o septo desviado. Com tal afirmação, imagina-se que tenho algum problema de caráter - afinal, há algo desviado - ou imagina-se que uso uma expressão poética de certa época e lugar. Mas, não. Quando uso a frase "tenho o septo desviado", digo que tenho a ponte do nariz torta, internamente - a condição não tem nenhuma força caricatural externa. O septo nasal é por vezes cruel: ele causa-me tantos problemas! A sinusite é constante, a cabeça e a face latejam nas temporadas invernais. E tudo isso sem nem me coroar com alguma deformidade visível! Às vezes penso que esse septo é realmente desviado.

Mas faço gracejos teatrais, escrevo isso pois encontro-me convalescido em virtude do septo e do frio, e por isso a vontade de reclamar do desviado. A verdade é que o septo não me incomoda na maior parte do ano. É claro que, na menor parte, sim, mas é tolerável. Na prática, sou apenas uma pessoa que gripa com mais facilidade e sofre mais com essas. O que me incomoda é a falta de uma marca, um signo na face que explicite essa torção interna. Que graça tem sofrer anonimamente? Poderia resolver isso com uma suposta cirurgia, já muito confiável e avançada, pelo que dizem. Mas tenho medo de ser cobaia, e a recuperação é um tanto cruel, além do risco cirúrgico, etc.

Uma cirurgia para endireitar o septo, não acho que isso me satisfaria. Seria mais interessante entortar o nariz externamente para igualar os polos. Isso, sim, resolveria meu problema, de uma correspondência das faces, a interior e a exterior, esta muito normal e aquela muito retorcida. Esse septo desviado nem serve-me para cumprir um capricho, preciso transformá-lo em literatura para que me tenha alguma valia...Penso que essa questão séptica deve ser uma brincadeira divina, um desses casos de humor de Deus. Entretanto nós, homens do XXI, não cogitamos isso. Falamos em termos claros, científicos, empíricos, aprovados pelo corpo místico do magistério da ciência. A propósito, aproveitando o ensejo científico, devo fazer uma correção: a expressão correta é "tenho desvio no septo". É o uso médico mais correto, também. Peço desculpas ao objetivíssimo departamento científico que lê estas páginas, mas gostei tanto do "septo desviado" que quero mantê-lo. Acho que explica melhor o meu problema. E Será que tenho culpa nessa história? Até meu esqueleto é barroco.

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sete obras de misericórdia - Caravaggio


Suas cenas sempre estão entre o começo e o fim de uma ação; parece que Caravaggio sempre está em busca do instante em que a verdade simbólica de um ato resplandece com maior clareza. O pintor busca o momento perfeito, onde há o maior drama, quando o conjunto dos gestos mais significativos se entrelaçam para construir a tela que mais choca, horroriza e emociona o contemplador. Caravaggio parece imaginar a cena em toda a sua extensão, para então ilustrar o segundo em que tudo se alinha da forma mais dramática possível. Ele quer capturar o segundo em que os olhos se reviram, em que o sangue jorra, em que o gesto, e, por extensão, o drama é perfeitamente visível.

Se imaginarmos uma curva gaussiana - cujo auge está no meio, e o começo e o fim são o seu sopé - temos uma ferramenta imagética para melhor entender uma ação dramática: seu início é apenas uma preparação, onde as intenções ainda se acumulam e ainda não foram exortadas, seu fim já é tarde demais, os atos já foram efetivados e a tensão já foi libertada, porém, o meio desta curva é onde está o ouro, é onde as intenções se transpõem em efetivação, é o intermezzo de tensão acumulada e liberada, é o clímax perfeito, é onde está o presente. 1 segundo antes, e a cena desejada ainda estaria no porvir, 1 segundo depois e ela já estaria no passado. Portanto, o mestre do chiaroscuro sempre escolhe o instante em que luz e sombra estão perfeitamente alinhados para revelar o máximo daquela ação (lembrando que a sombra também é reveladora), pois o passado é memória e o futuro, especulação, mas o presente é verdade. E a verdade desse presente é transmitida pela relação entre luzes e sombras - e, se quisermos desenvolver ainda mais esse esquema, poder-se-ia dizer que, se o passado é o fato já revelado, ele é o claro, e se o futuro é o mistério do que ainda não chegou, ele é o escuro, dessa forma, o presente tão perseguido pelo artista seria seu intermédio, onde a natureza simbólica mais profunda do chiaroscuro se revela.

Para explorar esse tema, podemos usar de exemplo a tela das Sete Obras de Misericórdia:

 


Encontrar a unidade numa tela barroca pode ser um tanto difícil, em especial por causa da devoção à multipolaridade. Explica Eugenio D’Ors que as figuras do barroco são marcadas por uma divisão interna, uma figura humana numa pintura barroca pode bifurcar seus gestos, negar com uma parte e afirmar com outra, a mão pode contradizer o braço ao qual ela pertence. Nesta pintura, por exemplo, vemos o símbolo da Caritas Romana, Pero, filha de Címon, alimentar o pai enquanto, simultaneamente, observa o lado oposto da tela, mostrando seu interior bifurcado, multipolar. Mas, a despeito de tudo que possa parecer dispersão e caos, interior e exterior, a tela é unida pelo princípio da Misericórdia, simbolizada pelo chiaroscuro.

Contudo, a obra faz mais sentido quando entende-se que o presente capturado por Caravaggio nesta tela é o instante exato em que a Graça toca o Mundo, e a unidade da pintura é atingida através da luz, que simboliza a Misericórdia divina e toca todas as personagens presentes.

A Madonna carrega o Menino e é acompanhada por dois anjos. Um deles estende a mão para tocar a terra, fazendo a ponte entre a eviternidade e a temporalidade, iluminando a cena. Só podemos ver as personagens e suas ações, pois elas participam da Misericórdia. Parece que a participação no ato misericordioso - seja fazendo, seja recebendo - é a condição que une todas as figuras na tela, numa unidade caótica e barroca de confusão multipolar esclarecida pela razão divina.

A luz é suficiente para que você veja as figuras celestes e as obras de caridade das figuras terrenas, todo o resto é contingente; o cenário pode ser uma viela comum napolitana, ou lugar nenhum, isso pouco importa. Do pai sendo alimentado vemos apenas a cabeça entre as grades, do morto sendo enterrado, vemos apenas os pés. Tudo que é visível participa da Misericórdia.

E, no meio de várias figuras, no canto inferior esquerdo, de forma quase invisível, Caravaggio pinta um homem no chão, possivelmente um leproso, a luz sutilmente toca-lhe. É possível ver seus dedos entrelaçados em forma de súplica ou oração, e também a sola de seu pé esquerdo, mostrando que ele não está de pé, fixo no chão, mas jogado. Mesmo com seu corpo quase completamente oculto pela sombra, por meio dos leves toques da luz podemos ver que ele está rendido, pedindo. O sofrimento deste doente, sendo cuidado por São Martinho de Tours, é acentuado pela sombra; o homem é quase imperceptível. O testemunho mais dramático da cena está longe dos holofotes, composta propositalmente para que o público possa esquecê-lo. Apesar disso, no momento especialíssimo que Caravaggio captura em sua tela, a Misericórdia o toca...de forma tão sutil e leve, o mestre do chiaroscuro pinta uma figura que pode até ser esquecida e ignorada pelo público - mas não por Deus.

 




§ Excesso

  Como de praxe, passo muito tempo pensando na obra perfeita. Assim fico contemplando a possibilidade e nunca o fato. Por isso não posto na...